Alysson Paolinelli é indicado ao Prêmio Nobel da Paz

O ex-ministro da Agricultura Alysson Paolinelli foi oficialmente indicado para o Prêmio Nobel da Paz 2021. A nomeação foi protocolada no Conselho Norueguês do Nobel, pelo diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Durval Dourado Neto.

Durante entrevista ao Canal Rural, Paolinelli explicou que a indicação não é por um projeto específico, e sim por uma vida inteira de trabalho.

“O último Prêmio Nobel dado a um membro da área de alimentação foi em 1950 e alguns líderes dos setores de pesquisa, da ciência e tecnologia achavam que estava na hora [de a área ser novamente contemplada]. Eu sei que é uma tarefa muito difícil, mas sinto-me muito honrado de defender essa bandeira da segurança alimentar aliada à sustentabilidade”, disse.

Quem é Alysson Paolinelli?

Mineiro de Bambuí, Paolinelli nasceu em 1936, tornou-se agrônomo em 1959 pela Escola Superior de Agronomia de Lavras (Esal), que depois tornou-se Universidade Federal. Em 1971, assumiu a Secretaria de Agricultura de Minas Gerais, a convite do governador Rondon Pacheco, e criou  incentivos e inovações tecnológicas que transformaram o estado no maior produtor de café do Brasil. Nessa época, o jovem Paolinelli já demonstrava talento para revolucionar setores inteiros.

Em 1974, aceitou convite do presidente Ernesto Geisel para tornar-se ministro da Agricultura, e tratou de modernizar a Embrapa e promover a ocupação econômica do Cerrado brasileiro. Foi nesse período que implantou um ousado programa de bolsas de estudos para estudantes brasileiros nos maiores centros de pesquisa em agricultura do mundo. Cuidou também da reestruturação do crédito agrícola e do um novo equacionamento da ocupação do bioma amazônico.

Foi com a iniciativa de Paolinelli que o Brasil se tornou uma potência alimentar para todo o planeta. “A Embrapa foi reestruturada, mandamos 1.530 jovens brasileiros para os melhores centros do mundo. Demos à Embrapa uma forma muito racional para atingir biomas diferentes, produtos diferentes e regiões diferentes. Isso foi muito importante”, conta Paolinelli.

Desenvolvimento de biomas

Nos anos 1970, o Brasil começou a produzir alimentos em um bioma considerado degradado e infértil, o Cerrado. “Conseguimos ativar o programa de médio e longo prazo, e fomos felizes pois em muito pouco tempo o Brasil mostrou que seria viável esse esforço. Em cinco anos conseguimos empatar a balança. Nos anos 1980 começamos a exportar e mostrar competitividade. Nosso país mostrou a força da agricultura tropical, permanecendo 12 meses no ano [com plantios no campo]. O mundo começou a ver que havia uma tecnologia tropical muito mais sustentável do que a deles, que desenvolveu não só a agricultura como também a pecuária”.

Segundo o ex-ministro, foram anos de pesquisa para entender como implantar o cultivo no solo da região Centro-Oeste e, desde aquela época, países que não conheciam o Brasil já criticavam a suposta exploração dos recursos nativos. “No Cerrado funciona assim: no primeiro ano corrigimos quimicamente; no segundo é fisicamente, com aração diferenciada para conseguir mudar as características do solo, deixando mais permeável; e depois leva mais cinco anos para recuperar biologicamente. Conseguimos em pouco tempo, fazer em três anos, e o mundo se assustou. Acham que estamos derrubando a floresta para produzir e não é nada disso”, continuou.

Ciência acima de tudo

A indicação atual ao Nobel de Alysson Paolinelli é feita com base na sua dedicação ao conhecimento científico e desenvolvimento da agricultura tropical. São décadas dedicadas à inovação e, mesmo aos 84 anos, o ex-ministro ainda pensa em como melhorar o processo de produção de alimentos sem agredir o meio ambiente.

“Eu sempre acreditei na ciência como a solução brasileira. Ela pode errar, mas ela mesmo conserta. Criamos o Fórum do Futuro, criamos o Projeto dos Biomas Brasileiros, mas temos uma convicção de que estamos em uma transição fundamental do químico para o biológico. Hoje somos dependentes da agricultura química e fico muito nervoso porque o Brasil poderia estar muito à frente dos demais países, mas para isso é preciso destinar recursos para a pesquisa, para a Embrapa, para que ocorra uma nova revolução no processo produtivo mundial”, disse Paolinelli, que confessa sonhar com o dia em que o mundo todo consuma alimentos tão orgânicos “como os que foram consumidos por Adão e Eva”. Para isso, a aposta em compostos biológicos seria a melhor saída, na avaliação dele.

Fonte: Canal Rural