Artigo: Idosos que sofrem de solidão precisam de uma política de suporte moral e emocional

Senior couple walking in park. Idosos caminhando no parque. iStockPhotos

Ana Fraiman – Mestre em Psicologia Social pela USP e Doutora em Ciências Sociais pela PUC-SP

A solidão é potencializada por uma série de restrições crescentes que as pessoas acima de 60 anos, de forma geral, passam a enfrentar e que impõem a elas limites físicos que as fazem parar de fazer aquilo de que sempre gostaram. Existe, sim, um número mínimo de idosos que decidem mudar radicalmente seus hábitos e passam a se exercitar, a praticar esportes de forma bem orientada, consistente e persistente; atitudes que resultam, em poucos anos, numa qualidade de vida maior do que aquela que desfrutavam aos 40! Mas a maioria se entrega e acaba por adoecer.

Nas grandes cidades, por exemplo, os idosos vivem confinados e tornam-se cada vez mais dependentes de filhos e netos que os visitam correndo. Ou que lhes trazem, quando bons e prestativos, produtos de cujas escolhas os próprios idosos não participaram. Fazer uma visitinha à noite? Nem pensar. Não se sai de casa e, assistir televisão, é sua quase que exclusiva opção. Isso ou uma boa leitura, uma boa música, a leitura da Bíblia, horas e horas ao telefone com uma amiga.

Claro, há os que entram na internet e conversam com o mundo todo, com a quase sempre falsa impressão de que tem ‘alguém que lhe quer bem’ do outro lado. Talvez sim, talvez não, como saber? Talvez se trate de solidões que, simplesmente, encontram eco e se potencializam.

Estimo que, em não mais do que 10 anos, a partir deste ano de 2016, onde nos encontramos agora, estaremos nós – os mais velhos – lutando por sermos contemplados por algum esdrúxulo e, absolutamente ineficaz, sistema de cotas que nos possibilite inserção mínima em algum espaço socialmente reconhecido e valorizado de desenvolvimento e capacitação.

Nada contra esta tentativa de correção de injustiças anteriormente havidas mas que assim ocorra por tempo determinado e breve, até que sejam implantadas e, futuramente colhidos os resultados, das reformas mais do que urgentes e profundas nos sistemas de: educação, produção, previdência, assistência, arrecadação de taxas e impostos, relações de trabalho, moradias, meios de transporte e todos os demais eteceteras que aí se acoplam.

Sistema de exclusão

Estarei eu politizando a questão da solidão? Como não fazê-lo se todo o sistema de vida e de governo é baseado na exclusão? Exclusão dos mais fracos e dos diferentes. E, bem, idosos – por certo – se integram às categorias ‘mais fraco’ (vulnerável) e ‘muito diferente’ (ultrapassado). Nossa cultura é preconceituosa e conflituosa.

Se assim não fosse, as cidades jamais teriam aberto mão em seu planejamento, dos espaços de convívio, de encontros, de estudos continuados, de contato com a natureza e com as artes.

Voltemos agora, então, à dramática e trágica questão da solidão. Que as coisas podem piorar, não restam dúvidas, mas a pergunta a ser feita aqui é: o que desejamos e queremos fazer para mudá-lasr?! Temos muito a realizar.

Acredito que não bastam os centros de referência do idoso, para onde eles conseguem – ainda – se dirigir, por conta própria ou aos pares e grupos. Não bastam os bailes da tarde. Não bastam os clubes nos quais idosos se reúnem para o lazer e o convívio social. Nem as viagens para se divertir e conhecer novos lugares. Também não bastam as faculdades da maturidade ou da melhor idade. Ainda: não basta o telefone e, muito menos, o contato virtual.

É preciso gente visitando gente, conversas olho no olho nas quais os mais velhos sejam ouvidos com atenção. Presença humana e aconselhamento cuidadoso e responsável. Precisamos de um abraço tanto quanto o nosso organismo necessita de ar para que sobrevivamos.

Tarefas dos idosos: cuidar dos netos, dos cachorros e etc.

Idosos moram isolados em suas casas e apartamentos, convivem em círculos fechados e não conseguem ser aceitos e bem acolhidos nos espaços das ruas e do trabalho. Continua-se destinando a eles as visitas às igrejas, montar quermesses, trabalhar voluntariamente e sem remuneração e se apresentar às casas dos filhos e filhas que deles necessitam para cuidar dos bebês e das crianças em idade escolar, quando lhes falta dinheiro, empregada e quem fique em suas casas, tomando conta inclusive do cachorro, enquanto saem de férias e não têm mais com quem contar.

Idosos assumem felizes, todas essas responsabilidades, mas não encontram quem coloque uma prateleira numa das paredes de sua própria casa, que conserte a cortina que está despencando, que limpe o lustre e por aí afora. Quando um idoso tem que contratar alguém ou alguma empresa para que sejam feitos os mínimos consertos, em geral esse idoso se atrapalha. Ou paga demais ou se sente inseguro, em relação ao desconhecido que vai entrar na sua casa e mexer nas suas coisas.

A dificuldade em subir num banquinho sem sofrer tontura, somada à dificuldade de não ter um familiar por perto e, mais, por estar, literalmente, ‘enterrando’ e chorando seu luto recente por não sei quantas pessoas amigas, família, cônjuges, vizinhos e artistas apreciados…

Por quantos motivos aparentemente bobos e, por quantas despedidas, uma pessoa idosa chora aos 60, aos 70 e aos 80 ou mais?

Ser idoso é, sim, confrontar-se com todo um mundo de relacionamentos significativos que está minguando, desaparecendo, adoecendo e morrendo. Ouço falar em enterrar três, quatro, seis pessoas queridas num pequeno espaço de dois anos ou menos. Quem não chora e quem não sente medo quando vê que as pessoas de sua idade e até mais jovens, estão indo embora, por doenças limitantes, incapacitantes ou por morte natural?

Solidão mata

A solidão mata e luto há muito para trazer para o Brasil, a começar pela minha cidade, minha querida São Paulo, uma forma positiva de estabelecer conexão dos idosos entre si e com estes serviços diferenciados, incluindo-se aí a rede de amigos e familiares que necessitam de uma série de serviços variados, que funcionem e atendam através de unidades em cada um dos bairros, além de outros pontos no centro da cidade e próximos ao Metrô, a que possam recorrer:

– Células de pessoas amigas a quem chamar e com quem estar, quando se sentirem sozinhos;

– Um serviço intensivo de acolhimento e de combate ao estado de isolamento, de solidão e desamparo, que bem poderá ser realizado por equipes de saúde, mediante campanhas de sensibilização, para adesão e visitação;

– Serviços de empoderamento aos idosos que podem estar sofrendo de abusos e negligência, aliado o serviço social às diligências legais, sempre que possível conduzindo-os a especialistas que trabalhem de modo coordenado para protegê-los e ajudá-los a recuperar sua independência e autonomia básicas, de modo a conseguirem levar uma vida digna e nutrida por cuidados afetuosos e sinceros, da parte de pessoas e profissionais bem preparados para trabalhar com a dor humana, moral e emocional, além dos cuidados físicos necessários, inclusive os de longa duração;

– Serviços especializados aos familiares que cuidam de um ou mais idosos em estado de maior vulnerabilidade e de dependência – física, mental, moral, afetiva e financeira – uma vez que os familiares responsáveis, também eles, precisam ser cuidados;

– Dispositivos para dar suporte àquela pessoa que teve que parar de trabalhar fora para cuidar de familiar idoso altamente vulnerável, que requer assistência diária e permanente e que, com isso perdeu seu salário ou sua renda enquanto profissional autônomo; atenção diferenciada ao familiar com mais de 50 anos, que ainda não pode se aposentar e, largando seu posto de trabalho, com renda diminuída, não conseguirá contribuir para a previdência e, em se afastando, terá perdido seus direitos de trabalhador;

– Serviços diferenciados às viúvas acima de 55 anos e, aos viúvos acima dos 60, que necessitam de orientação, alimentação, apoio, aconselhamento e visitação até que se integrem ou se reintegrem ao seu novo modo de vida;

– Visitação pessoal e semanal aos idosos que moram sós, incluindo-se aí uma série de serviços domésticos que recuperem a segurança e a capacidade de abastecer e cuidar de seus lares ou moradas;

– Linha telefônica aberta 24 horas a que possam recorrer em suas dificuldades nas situações do dia a dia e, de resolver problemas práticos, reais ou imaginários de suas vidas, com atendentes treinados para atender pessoas de idade, bem como seus cuidadores e familiares igualmente identificados como tal.

– Atenção os idosos homossexuais e às prostitutas acima dos 50 anos, com ênfase na prevenção e combate às doenças sexualmente transmissíveis, em especial a AIDS.

Fonte: Portal Plena