Filme ‘O último lance’ – planejando a aposentadoria

O filme finlandês O último lance, que se encontra em cartaz nos cinemas há duas semanas, é mais um dos preciosos perfis de personagens de mulheres e homens idosos nos quais o cinema europeu é especialista. Entende-se: o suicídio demográfico do Velho Continente é uma das preocupações centrais dos governos da União Europeia, um assunto discutido com frequência crescente por estudiosos do envelhecimento das populações que vem ocorrendo praticamente em todo o mundo ocidental.

Agora é a vez do finlandês Klaus Härö entrar para o competente grupo de realizadores que desmistificam a ideia de que viver a velhice, nos países industrializados, geralmente é um paraíso.

A história da produção de agora se passa nos dias atuais, em Helsinque: um modesto velho marchand, Olavi está sendo atropelado pela vida moderna – velocidade vertiginosa, ferramentas digitais e vendas online, rispidez no convívio com os mais moços e a concorrência agressiva em uma economia que anda devagar. À beira da falência ele pensa em se aposentar ou viver os últimos anos de vida com mais conforto, embora adore o seu trabalho.

Descobre então, exposto meio escondido, na casa de leilões da qual é antigo vizinho, um pequeno quadro que o seu olho, sua sensibilidade e a experiência lhe dizem que é um quadro valioso; mas cuja qualidade passa despercebida a todos.

Decide então apostar o pouco dinheiro que tem e aquele que não tem na aquisição da tela na qual um Cristo é retratado para em seguida vendê-la, com grande lucro, a finos colecionadores catalogados nos seus arquivos.

Será o último lance que ele dará em um leilão. A garantia para sobreviver sem maiores preocupações financeiras durante o pequeno futuro que tem pela frente.

O quadro, subestimado pelo leiloeiro, acaba sendo comprado por Olavi por 10 mil euros. Será revendido por mais de cem mil. É um genuíno Ilya Repin, que na vida real foi um dos grandes mestres russos do século 19, um ucraniano que viveu em Helsinque fugindo do regime de Stalin e lá morreu.

Paralelo a esta história principal de O último lance há o plot da relação difícil de Olavi com a distante e ressentida filha Lea e com o neto adolescente. Mas Otto termina por ajudar o avô egocêntrico nas pesquisas dele para confirmar a autenticidade do Repin e resolver o mistério da tela não ter sido assinada pelo mestre.

O filme de Härö pode ser recebido como uma história sentimental medíocre com um epicentro familiar problemático ou como um conto que narra a redenção de um velho avô descuidado e praticamente falido no fim da vida.

Mas há mais para ser sugerido e descortinado nesse pequeno filme de classe.
A Helsinque nos anos 60/70, capital serena e então francamente russificada, de bela luz sempre dourada, triste e admiravelmente reproduzida pelo diretor no seu filme, não existe mais nas lembranças de quem a conheceu meio século atrás. A americanização da cidade ostentando os trucks do Burger King e rasgada pelas calçadas congestionadas não é o ideal para o cenário da velhice de Olavi – o belo ator Heikki Nousiainen.

Para a composição da atmosfera de saudade e expectativa, a trilha musical de Matti Bye remete à nostalgia. E de uma perspectiva social o recado vem embutido.

A estratificação de classes no país hoje ultracapitalista se aprofundou de meio século para cá desde a era de ouro do revolucionário desenho industrial finlandês, então o mais apreciado do mundo.

E a crise demográfica europeia atinge em cheio os países bálticos, consequência do próprio progresso dito civilizatório, com o aumento da esperança de vida (média de 81 anos), uma grave crise de natalidade e a taxa de reposição populacional que não se mantém.

Assim, não e difícil perceber a vida dura dos milhares de Olavi também nos centros ultra – industrializados e simbolizada pelo Cristo de Repin. Um ícone (e por ser um ícone o trabalho não é assinado) que segundo o pintor reflete a humildade com que cada um deve aceitar a sua sina.

Fonte: G1